O desabafo de um Cabo da PMAL

Cargos de confiança deveriam ser designados não apenas por questões políticas e supostas confianças, mas, sobretudo por competência. Pensar em segurança pública com os atuais gestores é romantismo e utopia (para ficarmos em termos mais brandos).
Prestem atenção neste impressionante e-mail enviado (em três partes, ao longo de quatro dias) por um cabo da PMAL após assistir no Bom Dia Brasil (BDB) que o Coordenador Geral de Operações da PRF "pediu para sair" por causa da matéria divulgada no Fantástico, onde motoristas de caminhão compravam drogas (inclusive aqui em Alagoas, único Estado do nordeste onde o fato foi constatado) até mesmo com o cartão de crédito:
Caros responsáveis pelo blog Briosa em Foco,
Se concordarem, façam as correções e adaptações gramaticais necessárias e divulguem este manifesto!
**DE UM CABO DA PMAL PARA O SEU COMANDANTE**
Vi a corajosa atitude de um Diretor da PRF diante de uma situação que foi revelada nacionalmente pelas câmeras de um canal de televisão, onde motoristas de caminhão estavam comprando drogas até mesmo com o cartão de crédito, na maior naturalidade, como quem compra coisas lícitas, em vários Estados inclusive em nosso Estado, Alagoas.
Confesso que não fiquei impressionado, pois tenho visto coisas piores no meu dia-a-dia; muito embora o comandante da guarnição em que eu trabalho só queira cumprir a carga horária, mal preenchendo o "mapa de abordagens" e sem se envolver com mais nada, porque já passou dos trinta anos; muito embora, oficialmente, em nosso Estado certos tipos de situações pareçam não existir.
Reconheço os tímidos esforços que estão sendo dispendidos pelo comando em prol do serviço policial, e as dificuldades em tentar ter o máximo de êxito possível diante das parcas despesas que são destinadas para combater a criminalidade, bem como reconheço que em meio à dificuldade de meios existe ainda a dificuldade no que tange à mão de obra, o que se reflete no desfecho final da área fim, situação esta que – temos de admitir – é bastante complexa.
Tenho acompanhado com muita atenção cada informação que a SEDS tem passado para a população por intermédio da imprensa, e paralelo a isso tenho acompanhado o que as demais secretarias inerentes (e aí incluímos a nossa corporação) têm divulgado sobre as suas limitações e as sua logística.
Assim, poucas horas depois que assisti no Bom Dia Brasil no dia seguinte à matéria do Fantástico, onde vi a queda de um Diretor da PRF, li uma matéria do site Cada Minuto onde o nosso Diretor de Pessoal, o TC Louvercy, disse: "as perdas no efetivo não são compensadas e em tese, isso prejudicaria a segurança pública de várias formas". Esses dizeres, melhor dizer, essas revelações, deveriam ter, igualmente, toda uma cobertura especial por parte da nossa imprensa local, afinal, não é sempre que a mídia nos traz situações como as expostas pelo TC Louvercy. Situações que prontamente foram rebatidas pelo governo do Estado, menos de vinte quatro horas depois, na pessoa do vice-governador Nonô, para quem "o problema da PM não é de efetivo e sim de distribuição", má distribuição, para sermos mais exatos.
Em meio a estas informações, associando-se às minhas vivências na PMAL, isso soa para mim como sendo consequências de duas situações: i) ou os nossos comandantes no passado "levaram com a barriga" essa situação das nossas carências até o momento em que ficou insuportável administrar, o que está se revelando nos nossos dias, ou ii) os nossos comandantes do passado foram muito incompetentes para não terem percebido que mais cedo ou mais tarde estaríamos vivenciando tudo de ruim que está acontecendo com a nossa segurança pública. E aí, partindo do pressuposto de que não existem pessoas burras, até mesmo porque a burrice um valor que damos às demais pessoas com base nossos valores, eu penso que fomos gerenciados por pessoas que muito mais pensaram nas suas comissões e nas benesses que o posto pôde lhes trazer que propriamente em segurança pública.
Então, devido a tudo o que passamos, eu olho para os nossos gestores do presente, mesmo apesar de reconhecer as dificuldades e as limitações já citadas, situações estas frutos de má-gestões anteriores, repito, e concluo que os mesmos não diferem em nada dos gestores do passado.
Mudam-se os gestores, mudam-se as desculpas, e a situação tem mudado, mas somente para pior. Porém, é tão difícil reconhecer que (se) está errado, ainda mais quando se é orgulhoso, soberbo e, principalmente, egoísta. Outros comandantes militares, em meio à ineficiência das ações orquestradas, se estivéssemos em uma guerra contra um exercito de outra nação, claro, teriam admitido o que os nossos comandantes há tempos era para ter feito, ou seja, teriam admitido a sua incompetência (como corajosamente fez o Diretor da PRF). Contudo, aqui não é assim. Além do mais, se outros comandantes em situações semelhantes não o fizeram, iriam os atuais fazer o oposto e perder as benesses do cargo e a moral? É claro que não!
Assim, os mesmos contam com o apoio de Conselhos, Órgãos e Entidades de Defesa de Direitos Humanos, ONGs, Governo Federal, ajuda internacional, etc...
Eu também sou policial, comandante, e, assim, mesmo sendo um cabo de polícia, situação que para muitos é sinônimo de ignorância, sei perfeitamente que as coisas não estão nada bem, e que parte disso é culpa do senhor. É claro que no seu lugar eu até poderia fazer pior, pois a minha formação cultural foi outra, além do que eu não fui nem preparado para comandar guarnição... Entretanto, não é preciso ser muito inteligente para compreender que as "doutrinas" que a PMAL tem adotado ao longo dos anos, fruto do que os senhores pensam, tem se mostrado ineficazes. Por esta razão, de forma não tão corajosa e oficialmente como fez um colega de um dos batalhões de área da capital (através de um ofício de repúdio ao comando do CPC), eu me manifesto anonimamente neste protesto.
Por muitos anos eu achei que a culpa era somente do governo, hoje eu quero mudar o meu discurso e com isso fazer coro com os que atribuem a culpa só e exclusivamente ao comando. Qualquer um pode atribuir loucura ou mera oposição a estas palavras. Cada um que pense da forma que lhe parecer mais lógica ou racional. Eu penso de acordo com o que vejo e o que compreendo.
Sei que é enorme é a distância entre o meu posto e o de um coronel. Sei que as nossas atribuições são distintas. Eu nem mesmo sei o que faz um coronel, apesar disso a recíproca também é válida. Se os coronéis soubessem quais as prerrogativas dos cabos, não nos colocariam, a nível de exemplo, na guarda do QCG para fazer as funções dos soldados. E não é só no QCG que isso acontece. Nos batalhões de área o mesmo se repete, e se repete também com outros postos, onde muitas vezes os sargentos fazem as nossas funções de cabos ou até de subtenentes, sem receber os vencimentos deste posto. No meu cotidiano eu trabalho por mim e pelo soldado, às vezes até pelo sargento, e ganho pouco. Com muito sacrifício, vou conseguindo dar conta do recado, inclusive quando tenho de desempenhar as funções de sargento, apesar de não ser classificado. Tudo em prol da segurança pública, tudo em prol da corporação... Um exemplo que não é seguido pelos oficiais, que quando chegam a certos postos nem serviço de rua querem tirar.
Felizmente, em auxílio às minhas limitações, conto com o apoio dos companheiros de serviço, os recrutas, que devido à suas habilidades dão show em qualquer graduado. Mas o que isso tudo tem a ver? Aí que está comandante, tem tudo a ver sim senhor! Porque a humildade é o princípio da sabedoria. Quando eu não tenho competência para desempenar uma função, eu procuro ajuda com quem pode me ajudar, e também procuro aprender com isso. Eu não espero que as pessoas que estão acima de mim – ou até mesmo meus pares – tomem conhecimento das minhas demonstrações de limitação para me chamarem à atenção ou até me ridicularizarem. Eu mesmo procuro reconhecer o que estou fazendo de errado, assim como procuro mudar, e quando eu ajo sem me dar conta de que estou errado, sou bastante grato quando sou advertido. Busque inspiração nesse ensinamento bíblico sobre a humildade, comandante, que o senhor vai desempenhar um dos mais importantes atos em sua vida. Não espere ser destituído por "limitações".
Se o senhor ainda não sabe quem sou eu, eu sou uma daqueles soldados que o senhor puniu estupidamente quando ainda era aspirante. Aquela punição me impediu de fazer a prova de sargento e ainda contribuiu para que eu levasse outra "cipoada" e caísse para o mal, onde quase fui expulso, sem falar da "banguela"... Essa parte, comandante é para o senhor ver que mesmo os pequenos atos que praticamos, por mais singelos que eles possam parecer, carregam em si desfechos que podem ser catastróficos. Tenha-se, por exemplo, a sua cobrança aos municípios, referindo-se indiretamente ao combustível que muitos deixaram de fornecer ou então reduziram a cota... Todos nós sabemos qual foi a sua intenção com tal cobrança, mas veja a repercussão negativa que isso causou! Foi um verdadeiro fiasco!
Na sua próxima suposta grande ação como Comandante da PMAL, caro comandante, quando o senhor estiver prestes a assinar no papel, tenha certeza que se o senhor não tiver a humildade de "pedir para sair" o governo será implacável contigo (como muitas vezes o senhor foi conosco e ainda está sendo) e o destituirá pondo outro comandante que julgar mais competente. E dentre as pessoas que de uma forma ou de outra fazem oposição á sua pessoa o que não falta são pessoas qualificadas e carismáticas perante a tropa – só esperando uma oportunidade para mostrar serviço. Enquanto isso, se de fato o senhor se julga diferente dos demais gestores, haja como tal. Ouça a tropa. Seja flexível. Lidere, ao invés de comandar!
O único que ficou quatro anos no cargo de Comandante da PMAL foi o coronel Ronaldo dos Santos. Suas ações, apenas para recordamos, eram "mescladas"; ele era governo, mas não oprimia a tropa em busca de resultados. Ele não tinha tantos opositores ou simpatizantes quanto se vê hoje em dia em relação ao vosso caso, mas ele sabia bem o que se passava. Para resumir sobre este gestor, o que podemos dizer é que ele "fez o lado dele", e ainda tem feito, representando bem os seus papéis sem precisar tanto e mostrando mais resultados que os apresentados atualmente. Isso, nobre comandante, também é humildade, é um claro exemplo de sabedoria.
E a vida segue em frente. Eu já dei o meu recado. Eu já passei da metade do tempo que tenho que cumprir pela Briosa. Sinto que poderia "render" mais. Infelizmente, pelo que vejo, estarei por mais um tempo apenas cumprindo o cartão programa de todo santo dia (conforme as diretrizes de quem me comanda), dando voltas e voltas em locais onde não tem nem rafa-mé para pegar o nome dele, ou então presenciando situações aonde o comandante da guarnição diz para "deixar para a RP e o BOPE", presenciando mais e mais gestores apenas visarem às benesses que os cargos podem lhes trazer, como sempre acontece. Também, ganhando pouco e trabalhando feito um condenado, sacrificando a folga em bicos para manter o sustento da casa, se/me sacrificando pela corporação e sendo punido por questões banais, vendo apenas os senhores se darem bem, sabendo que continuaremos esquecidos, quem pode querer dar algo de si em prol da segurança pública em meio a todas estas situações?
Eu sei que de uma forma ou de outra esse e-mail vai chegar ao senhor, comandante. O que eu mais queria é que o senhor tivesse a humildade de "PEDIR PARA SAIR", para não passar pelo vexame da exoneração. Faça isso, coronel, será melhor para todo mundo, e principalmente para a Instituição Polícia Militar. Isso vai ajudar a resgatar a moral da nossa polícia, pois qualquer governo que se vir diante de uma circunstância (tal qual uma pauta de reivindicações para o desempenho da função) irá pensar "trocentas" vezes antes de negar o pedido de um Comandante da PM (sabendo que ele pode largar o cargo e complicar o governo perante a opinião pública).
Por derradeiro, para finalizar estas palavras, EU POSSO SER CABO DE POLÍCIA, MAS CONHEÇO A CORPORAÇÃO MELHOR DO QUE MUITOS QUE JÁ PASSARAM PELO COMANDO. Talvez a gente (que critica porque quer o melhor) não consiga melhorar as coisas agora, mas com certeza vamos fazer as pessoas refletirem sobre muitas coisas, em especial esta inversão de valores que assola a segurança pública em Alagoas.
Este é o meu desabafo.
Nota de esclarecimento do BEF: como solicitado, as correções e adaptações gramaticais foram pontuadas e apresentadas ao autor do texto (a quem agradecemos a participação e a confiança, bem como parabenizamos pela pertinência nas argumentações), que autorizou a publicação na forma em que ela está sendo apresentada nessa postagem.

8 comentários :

Jenésio, o Pecador disse...

"PEDE PARA SAIR", Cel Luciano!

Anônimo disse...

o cb véi botou para desmoralisar

CAPITÃO QUE ESTAVA NO MUNTURO E FOI PEGO PELA PRF LA NO PILAR O BOM....................... disse...

CORONÉ COM UMA DESSA EU ..........FUI, VOU FALAR COM O MEU PEIXE O DARIO

Anônimo disse...

As coisas só mudarão no dia em que um pouco de socialismo pairar sobre as instituições militares e policiais, quando as diferenças salarias parecerem insignificantes e trabalharmos em prol de um bem comum, quando nos tratarmos como profissionais que somos e não numa divisão de castas entre pessoas numa mera reprodução da idade medieval. Mas amigo, parabéns pelo texto e não se milindre em ajudar, em trabalhar, não comece essa diferenciação pelo desempenho da função, lembre-se que o recruta será a reprodução do seu futuro e que o sargento é o espelho do seu.

Uma Policial disse...

"O sândalo perfuma o machado que o fere."

Continue firme nas suas convicções, Cabo, e parabéns pelo texto.

Sobre o militar que enviou o ofício ao CPC, pelo que conhecemos do comando, certamente este militar vai entrar num IPM...

Acho que o ofício deveria ser enviado para a imprensa anonimamente ou então divulgado aqui.

OUVIDO BIÔNICO TUTUTUTUTUTUTUTUTUTU disse...

PESSOAL UM OFICIAL PEGOU O DINHEIRO DAS DOAÇÔES DO SEU BPM E GASTOU UM PEDAÇINHO O GENERAL MANDOU FAZER UMA PARTE DO OFICIAL PORQUE GASTOU O DINHEIRO DA DOAÇÔES

Anônimo disse...

Muita revolta no Incêndio que destruiu o Pavilhão do Artesanato em Maceió. O Major CB Carlos Burity desabafa sobre as péssimas condições de trabalho do seu pessoal.

http://www.youtube.com/watch?v=6E9oIyjLnwk

Anônimo disse...

Estatuto da PMAL:

Art. 26. Os subtenentes e sargentos são formados para auxiliar e complementar
as atividades dos oficiais, quer no adestramento e no emprego dos meios, quer na instrução,
administração e no comando das frações de tropa.

Art. 27. Os cabos e soldados são essencialmente elementos de execução.

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