O Juiz e o Coordenador Operacional

Ficamos sabendo que os praças das Unidades da Capital, por decorrência das sucessivas denuncias inerentes às condições de serviço que estão sendo divulgadas na imprensa, estão tendo de devolver as armas que estão cauteladas em seus nomes. Sobre este fato, já que "não é nada pessoal", como bem está sendo afirmado pelos Comandantes de Unidades, gostaria de saber por que apenas os praças estão tendo de devolver o material sob sua guarda e os oficiais não? Com a palavra: o Rei Sol!
É realmente um absurdo toda essa situação, como também é um absurdo as condições de serviço que nos são impostas para desempenharmos as nossas atividades. Na minha seção, por exemplo, falta tudo, ao contrário de outras onde até lanchinho e cafezinho com biscoito tem. Infelizmente nem alojamentos em condições básicas de higiene nós temos, o que nos faz concluir que teremos de continuar trazendo notícias como estas por muito tempo. Como disse o Tenente Stive outro dia: "tenho em meus princípios que quanto a equipamentos devemos todos ter a mesma qualidade, independente de posto ou graduação". Por isso, "nessa questão de meios, deve-se ter a consciência que todos nós estamos no mesmo barco", razão pela qual devemos ser todos tratados da mesma forma.
A propósito, já que falamos em justiça e igualdade, assim como em condições de serviço, vou contar algo que aconteceu comigo durante um serviço "um triste dia".
Sempre tive por princípios ser um homem correto e sério, mesmo tendo os meus defeitos como qualquer um. Um dos meus defeitos, se é que assim podemos qualificar, é querer tudo certo. Eu ainda era capitão e estava tirando o serviço como Supervisor de Batalhão, quando, após fazer abordagens em vários veículos, tive a infeliz ideia de tentar abordar o carro onde estava um juiz. Eu não imagina que naquele veículo se encontrava uma autoridade, mas partindo do princípio da igualdade, onde devemos tratar a todos igualmente, cometi um grande erro. Isso, meus amigos, a prática ensina que é um defeito, pois para na nossa corporação apenas PPP (preto, puta e pobre) deve ter tratamento igualitário, e os demais – ainda mais se for alguém da Justiça – tem que ser tratado de forma diferenciada, e há bastante fundamentação para tanto. Isso é uma coisa que não se ensina teoricamente, mas que se aprende na prática, pois é uma coisa normal.
Como eu dizia... Estava de serviço pelo Batalhão "X", fazendo blitz em uma área periférica da referida Unidade, e um certo senhor (que até então eu não conhecia nem de nome) não atendeu à determinação do sargento para parar o seu veículo entre os cones, para a abordagem, seguindo em frente com uma brusca aceleração quase batendo nas Vtrs. Diante disso, empreendemos a perseguição ao veículo com as sirenes a mil por hora, pedindo apoio em "urso-urso" ao COPOM, e quando o condutor perseguido viu que não dava para fugir, resolveu parar o carro no meio da rua, desceu e, para nossa surpresa, veio em nossa direção bravejando coisas ininteligíveis e dizendo que queria os nossos nomes, pois estávamos todos presos.
Perplexo com aquela atitude, e por ser o comandante do policiamento, fui falar com o cidadão e saber quem ele era; afinal, quem era ele para me prender? Foi quando ele se apresentou (com uma clássica carteirada) como um Juiz de Direito. Pronto! Como a corda sempre arrebenta do lado mais fraco, mesmo estando correto, tentei tirar a situação por menos, imaginando o que poderia nos acontecer, fazendo-o ver que a sua atitude foi o que motivou a nossa ação, bem como tentei dizer que a nossa missão constitucional prima pela prevenção, o que justificava a nossa ação presença através das blitz, sempre de forma imparcial e com respeito às leis...
Mas nada disso adiantou! Em poucos instantes o cidadão deu uns mil telefonemas, e cada vez que ele falava com uma pessoa diferente a nossa situação era agravada. Era ele ligando para os seus contatos e eu ligando para o Coordenador ao Copom, que já tinha recebido a ordem para nos recolher! Confusão formada, pessoas se aglomerando, carros passando devagar pelo local da ocorrência... O Coordenador a cominho... Foi quando eu solicitei que a autoridade estacionasse o seu veículo próximo ao meio fio, para dar fluidez ao tráfego de veículos, haja vista o engarrafamento que havia se formado. Esta, por sua vez, aos gritos e com o dedo em riste em direção ao meu rosto, disse que eu prestasse mais atenção no trânsito para que não viesse a acontecer acidentes, ainda mais com o seu carro.
Perdi o controle depois disso. Resolvi fazer o meu papel de policial e tomei a coragem de solicitar o BPTran para autuar o Juiz pelo fato do mesmo ter descumprido ordem legal da autoridade competente (Eu), primeiramente quando foi mandado parar e depois quando abandonou o veículo no meio da rua e se recusou a estacionar devidamente, bem como por ter praticado direção perigosa ao acelerar o carro quase vindo a atropelar um soldado e, o mais grave (mais grave porque disso ele tinha como escapar), por estar dirigindo embriagado. A autoridade ainda bravejava, achando que o Coordenador estava vindo para nos recolher (e de fato estava), quando a deixamos a par do que iríamos fazer e então as coisas mudaram. No caso, iríamos fazer o bafômetro ali mesmo, e depois iríamos para a delegacia de plantão formalizar a ocorrência e no caminho iríamos acionar a imprensa. Quem mais tinha a perder com aquilo tudo?
Nos afastamos da autoridade e ficamos esperando o Coordenador.
Chegou o Coordenador e para nossa surpresa o Juiz "reconheceu" que havia se excedido e que tudo já estava resolvido. Fitando-me nos olhos, ele disse que estava de bom tamanho a minha orientação, e que estava tudo correto. Porém não estava nada correto. Manifestei ao meu superior a vontade de oficializar a ocorrência na Deplan, mas até o tenente-coronel que era para me dar apoio, concordando com o juiz, disse que era para ficar tudo por ali, e que não era pra eu contrariar a sua orientação, pois daquele momento em diante a ocorrência era dele. E eu prontamente respondi que iria por tudo aquilo no relatório, assim como disse para ambos que eles, como autoridades que eram, deveriam dar o exemplo e fazer as coisas corretas, e que fossem o que fossem, isso não dava a eles poderes para fazer nada errado, fosse violando as leis, ou abusando da autoridade, ou então prevaricando. Não sei como, mas que eu disse, eu disse.
Pois bem, o juiz foi pra casa humilhado e com a sua partida o tenente-coronel fez o maior barulho, imagina contra quem? Exatamente! O mesmo disse que ia instaurar uma sindicância contra mim, que iria fazer de tudo para que eu respondesse um IPM, só faltou me dar voz de prisão por insubordinação. Ah, ele também disse que iria falar com o Comandante Geral para me deixar preso, mas, pelo que fiquei sabendo, ele falou apenas com o meu Comandante de Unidade na época.
Horas depois do ocorrido, pois não é que até um desembargador me ligou? Bem, o mesmo me perguntou o que aconteceu, tendo a devida explicação, e ao final me acusou e disse que eu ia "me arrombar", pois se um juiz foi tratado de forma vexatória e desrespeitosa, imagina então a população menos favorecida etc., etc... Estou esperando o bambão até hoje!
Resultado? Aprendi que tem gente que acha que pode fazer tudo e que tem gente dentro da corporação que "se borra" de medo desses caras, e que se for para agradar os poderosos, com certeza, eles irão te ferrar, sem dó nem piedade. Aquela velha história de querer agradar os poderosos, não podendo a PM fazer nada para desagradá-los (seja com promoções, lutas por melhorias salariais, lutas por contratação de mais PMs...).
Tenha certeza que as maiores vítimas quando somos desrespeitados, por quem quer que seja, no nosso dia-a-dia, é primeiramente a gente mesmo, e a segunda vítima é a sociedade, que, em relação ao meu caso, a partir daquele dia passou a ter um oficial mais receoso de realizar seu trabalho. Então, se eu que sou oficial estou assim, o que se dizer dos solados, que são os mais vulneráveis?
O desembargador, que tanto falou em legalidade e disse que ira fazer e acontecer, deveria dar uma canetada solicitando a promoção de todos os membros das guarnições envolvidas no episódio, pois estávamos todos corretos e o governador usando de ilegalidades e da influência do comando não quer dar as promoções que são devidas e merecidas. Volto a dizer que esse Estado é uma piada, Alagoas não é um Estado sério! O juiz, mesmo estando errado, estava representando o seu papel (que no caso era um papelão), já o Coordenador, que ficou conhecido por nós como o Prevaricador, este deveria fazer ronda lá no Jacintinho à 1 hora da manhã, de preferencia dentro das grotas com uma guarnição de área bem macetosa, que o deixasse ficar abordando com carinho e sem as devida precauções todos que ele lá encontrar. Coordenador Operacional, seja lá você quem for, saia do ar condicionado! Coordenador Operacional na PMAL nos dias atuais... Isso é uma piada de mau gosto!

5 comentários :

Major Burity disse...

“É difícil ouvir as pessoas gritarem que não queremos trabalhar, quando na verdade não temos sequer condições adequadas para exercer nossa profissão”

Marilha de Almeida disse...

Meus queridos, recentemente o Vice Governador foi INFELIZ em dizer que Alagoas não precisa de mais policiais nas ruas. Em outras palavras ele disse que a culpa dos crescentes índices violência em Alagoas é porque os policiais estão gordos e velhos.
Ora, se estão velhos é exatamente porque não há concursos e se estão gordos é porque trabalham em uma escala tão exaustiva que não sobra tempo para se exercitar. Engraçado como o comentário de Nôno soa como se os culpados dos policiais estarem gordos são dos próprios policiais que vivem em orgias alimentares.
Bem, qualquer cidadão pode constatar que quem pratica verdadeira orgia em hotéis e em restaurantes (Wan Chako, desculpe se não sei o nome correto, mas é que meu salário de policial nunca me permitiu conhecer) são os políticos.
Mas, de fato, quem deu a melhor resposta ao Nôno foi o ex-governador Ronaldo Lessa, independente de partido, até porque nunca voltei nele, o comentário vale a pena ser lido, porque tem um elevado grau de conhecimento da realidade de Alagoas, amparado por informações técnicas. Diferente da afirmação de Nôno que não tem base alguma seu comentário.
(Vejam o comentário do Ronaldo Lessa a seguir)

Ronaldo Lessa (parte 01) disse...

“A obesidade é também sinal de distúrbio”
Segundo dados divulgados por um site de notícias alagoano a partir de um relatório reservado da Polícia Militar, a junta médica da PM concedeu 6.028 licenças em 2010. O efetivo da corporação é de 8.025 homens. Imediatamente, o governo do Estado veio a público dizer que era esse o principal problema da instituição e que tais solicitações precisavam ser revistas para melhorar o desempenho no combate à violência. Some-se a isso o fato de que há alguns dias o governo já havia declarado que o número de policiais no Estado era o ideal, não havia necessidade de mais contratações. Parece inacreditável, quando não, irresponsável.
O que induz o excessivo número de licenças médicas? Preguiça? Lassidão? Medo de combater a bandidagem? Nada disso. Trata-se da constatação de que a Polícia Militar está doente, com homens exauridos por jornadas de trabalho desgastantes, deprimidos pelos baixos salários, desmotivados diante da falta de planejamento em ações eficientes para fazer frente à criminalidade crescente e irritados pelas precárias condições dos equipamentos que têm de lidar – muitos trabalham com coletes à prova de balas vencidos.
Alguns podem argumentar que a licença medica seria uma fuga, um derivativo da situação vivida, mas não se trata disso. Está provado que o estresse somatiza e as doenças advindas não são imaginadas. Há males físicos sim, o que referenda nossa afirmação de que a Polícia Militar está doente.

Ronaldo Lessa (parte 02) disse...

Por outro lado, a autoridade governamental ironizou dizendo que há policiais obesos, ineficientes para o combate à violência – como se a tropa estivesse refastelada vivendo nababescamente. A obesidade é também sinal de distúrbio. Não significa que o policial engordou de prosperidade. Pelo contrário. A ansiedade é desencadeadora do mau apetite e das complicações que traz.
Em “Estresse: diagnóstico dos policiais militares em uma cidade brasileira”, trabalho dos pesquisadores Marcos Costa, Horácio Accioly Junior, José Oliveira e Eulália Maia, (Rev Panam Salud Publica. 2007), é delineado um quadro do que vivemos hoje em Alagoas: “Pelas características da sua profissão, o policial é um forte candidato ao burnout, um tipo específico de estresse crônico. A síndrome de burnout se caracteriza por apresentar sintomas e sinais de exaustão física, psíquica e emocional que decorrem de uma má adaptação do indivíduo a um trabalho prolongado e com uma grande carga de tensão. O termo serve para designar um estágio mais acentuado do estresse, que atinge profissionais cujas atividades exigem um alto grau de contato interpessoal, a exemplo dos policiais, enfermeiros e assistentes sociais, entre outros. Esse quadro propicia o surgimento de patologias e disfunções, tais como a hipertensão arterial, úlcera gastroduodenal, obesidade, câncer, psoríase e tensão pré-menstrual, as mais estudadas entre aquelas relacionadas ao estresse. Além disso, os estudos mostram que os policiais com burnout empregam mais o uso de violência contra civis”.
Se o governo investir CONTRA os policiais, como tudo indica, as consequências poderão ser catastróficas. Além de agravar o problema da violência podemos ter o cidadão inocente pagando nas ruas pelo erro de uma gestão incompetente.

Policial Militar disse...

Bom, a julgar pela história, o que certamente já deve ter ocorrido com muitos oficiais da PM, mais uma vez a briosa acaba prendendo uma "autoridade" em ação delituosa e logo a turma do “abafa o caso” tenta dar um jeitinho. Isso me faz lembrar do caso do juiz que bebeu um pouco além da conta e que decidiu dar uma pisa em sua namorada, e quando da chegada da guarnição PM desacatou os policiais e os ameaçou de morte, dando-nos um “belo” exemplo dos excessos cometidos pelas nossas "autoridades".
E mais uma vez a história se repete, os PMs fazem seu trabalho, são desacatados, ameaçados e ainda no fim das contas ainda são acusados de abuso de autoridade. Afinal, onde já se viu o “assalariado” do serviço público prender um todo poderoso juiz de direito, suprassumo da dignidade e honestidade no Estado das Alagoas?
No caso apresentado no texto dirão que é inadmissível prender o pobre juiz, pois nada ele fez de mais, apenas queria dirigir uns poucos quilômetros embriagado, e no caso do Remídio apenas dirão que ele só queria dar umas pequenas tapas em sua namorada, e o que isso tem de mais?
O problema reside nesses "urubus fardados" que vivem para atrapalhar o bem bom das "autoridades" judiciárias. No fim das contas, a exemplo do Remídio, a sua namorada foi acusada de agressão, pois enfiou a cara na mão do Sr. juiz de direito, que ainda queria que a pobre coitada pagasse pelos estragos feitos no carrão dele, quando ela quebrou os para-brisas com a cabeça.
Quanto a qualquer guarnição que “resolver” prender uma autoridade judiciária em ação delituosa, será acusada de querer aparecer aos holofotes, pois é impensável um pobre soldado de polícia prender um juiz. Tenham certeza que um determinado ex-auditor militar irá criticar duramente a conduta dos PMs, dizendo que os mesmo são "urubus" fardados, e que só prenderam esse amável juiz, para aparecer nas páginas midiáticas. Esquece o juiz, que quando um fato dessa natureza ocorre é porque esses PMs que estavam trabalhando se viram obrigados pela imposição da lei a efetuar a prisão, como já aconteceu em algumas situações. Ademais, há casos em que até pode ser feito o “acolhimento de uma ordem superior”, mas o que sempre ocorre é que as autoridades envolvidas não se comportam dignamente como uma autoridade deve se portar, principalmente perante a sociedade.
E o que falar de maneira de se portar, se quem nos chama de urubus fardados, é flagrado pela Polícia Federal pedindo um emprego para um parente? Quase se humilhando por uma “boquinha” para um familiar... Vejam a situação ridícula. "Posso confiar? Posso Confiar?"....
Pergunta que ainda não calou: por que esse ex-auditor militar não se indignou com a ação da PF? Será que porque se denegrisse a imagem da Polícia Federal, a rebordosa seria muito grande? Mais gravações apareceriam?
Alguma coisa está errada com as nossas autoridades, pois se acham a cima das leis e querem a todo custo dar a conhecida “carteirada”. Na verdade, acho que não temos autoridades, em Alagoas, temos "OTORIDADES", que nada mais é do que pessoas que entendem que a lei deve ser maleável quando envolvem elas mesmas e seus parentes.
Logo, logo, criarão uma Súmula Vinculante, onde serão colocados as possíveis autoridades que não podem de jeito nenhum serem presas, mesmo que em flagrante delito. Exemplo: juízes, filhos de juízes, deputados, filhos de deputados, desembargadores e seus filhos, promotores, vereadores, etc., etc...
Em meio a tanto desrespeito, só mesmo esse famigerado reajuste do governo: um verdadeiro tapa na cara dos cidadãos, mostrando que em 2011 nada mudará no Estado Em Formato de Calcinha.

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