O SOLDADO CONGELADO

Resolvemos, "aqui e agora" na BEF, pôr à prova – por meio de simples teste – se o vento das mudanças soprado no Brasil nesses 500 anos conseguiu arejar o ambiente interno das polícias militares ou se passou por fora e bem longe do muro das briosas.
PM: UMA MÁQUINA PARADA NO TEMPO
Vamos lá praça, veio. Copiamos aqui uma ideia (cuidado, na PM não é muito saudável tê-las) muito usada naqueles filmes de ficção científica, e transportamos um soldado da PM de Alagoas do início do século XIX, por volta da época de D. João VI, ainda príncipe regente de Portugal. A ideia foi congelar nosso soldado na época do Brasil-colônia.
Se, por um danado de um acaso fortuito, esse soldado acordasse dentro do Quartel Geral da PM em 2011, ele nunca ia imaginar que quase dois séculos haviam se passado...
Ele pensaria que tinha cochilado durante a sua "voada" do plantão, há duzentos anos, e ao acordar, nosso viajante do tempo se veria no cenário abaixo, mais do que familiar:
1 – Veria as mesmas formalidades no quartel (hasteamento e arreamento das bandeiras no pátio do QCG, a troca de guarda, o sentinela apresentando armas para os oficiais etc.).
2 – Entraria em forma, e seria obrigado a ouvir uma sacal "preleção" do oficial de serviço.
3 – Notaria que o oficial de dia, o sargento da guarda, o cabo da guarda e os plantões, faziam as mesmas coisas da época em que Alagoas era (?) uma província.
4 - Acordaria com o toque da alvorada; a mesma desgraça de corneta barulhenta de quase 200 anos atrás.
5 – Na formatura geral, a banda da PM tocaria o ordinário marche, "bum" (passo no bumbo marcado com o pé direito).
6 – Do mesmo jeitinho de há 200 anos, a corporação era carente de estrutura, de armas, de efetivo, os praças sem uniformes, os alojamentos sem nenhum conforto; mas para os oficiais do alto comando sobrava "apoio logístico" (ops, ninguém disse DAL).
7 – Se tivesse fome e fosse ao rancho "dos cabos e soldados" veria seus colegas reclamando da qualidade da comida, exatamente como no século XIX. "O rancho dos oficiais é melhor", pensaria. Aliás, o rancho dos oficiais, continua sendo chamado de "cassino"; se fosse ao banheiro, por mais apertado que tivesse, procuraria pelo "banheiro dos CBs e SDs".
8 – Na manhã seguinte, em forma no pátio do quartel com a cara para o sol, escutaria a leitura do Boletim Geral, esperando pela infalível passagem de punição de praça por "indisciplina". O enquadramento quase não tinha mudado: "O soldado fulano de tal, por ter, no dia tal, no lugar tal, faltado com o decoro da classe e o pundonor...".
9 – Conversando com seus colegas de dois séculos à frente, nosso viajante do tempo descobriria que, como lá na sua época provinciana, os oficiais espremiam os praças nas escalas de serviço, e que era perigoso e proibido reclamar; os oficiais folgavam muito mais (só que os subordinados não podem "censurar" os atos dos superiores); mas, sempre tem um "praça folgado" que resolve pedir uma escala melhor e uma folga mais justa, correndo o risco de ouvir do oficial comandante a seguinte resposta: "Deixe de macete, soldado. Tá achando ruim, peça baixa".
10 – Se por acaso fosse ao CFAP, se recordaria de sua formação de praças porque os "recrutas" continuam sendo formados na base de traquejo, de "ordem unida", de "legislação castrense" e zero treinamento para o verdadeiro policiamento de rua.
11 – No fim do mês, ao receber o soldo, nosso viajante do tempo coçaria a cabeça. O dinheiro não dava pra sustentar com dignidade a família. 200 anos sem aumento...
12 – Como no Brasil-Colônia, não era nem doido de reclamar do soldo ou do trabalho "escravo", porque seria punido ou transferido para o Interior do Estado (digo, da Província), onde ao chegar, dependendo do interior, notaria que quase nada também mudou: estradas de barro, a delegacia com um soldado, no máximo dois, gente pobre por todo lado...
13 – Se um oficial desse uma parte de nosso viajante, ele nem se daria ao trabalho de se defender. Suas chances de não ser punido eram próximas de zero mesmo. Ou você duvida que o RQUERO mudou nesses 200 anos?
14 – Em seu tempo, no fim do expediente, nosso viajante se acostumou a ver os oficiais serem levados para casa, e de casa ao quartel, por soldados cocheiros em "carruagens oficiais", enquanto ele e os outros praças tinham que se virar de qualquer jeito pra ir embora. Não é que nosso viajante do tempo só notou a diferença nas "carruagens oficiais" e na mudança do nome de "soldados cocheiros" para "motoristas", porque o costume é exatamente igual.
15 – Não sem certa angústia, nosso soldado do século XIX veria o desestímulo de seus colegas depois de alguns anos na PM, notando que a vontade de ser "puliça" tinha sido minada pela ânsia dos "comandos" por dinheiro, prestígio e poder dentro e fora da caserna, esquecendo-se eles de realizar a missão legal da corporação.
Outra coisa angustiante: a promoção de praças é tão lenta que ele acordou soldado depois de 200 anos e não sabe quando será cabo.
Diante das enumerações arriba, você viu tudo que não mudou em dois séculos!
Agora o nosso bravo viajante resolve perguntar aos colegas como é o Comandante Geral da PM e como ele trata a tropa. A resposta é a mesma de 200 anos: "Se bobear, o chicote come. O 'homi' é fogo, praça!"
Que "malvadeza"...
Vamos, doravante, fazer uma comparação de ambientes nessa nossa aventura no tempo. Levemos nosso viajante para um passeio fora do quartel. Com certeza ele ficaria louco perante as mudanças avistadas. Emudeceria diante de pessoas diferentes, usando roupas diferentes de sua época, diante do avanço da tecnologia, das novas relações sociais e econômicas, das liberdades individuais e coletivas, da liberdade de expressão, da ausência de escravos nas ruas (diferente do quartel), dos meios de transporte, indústrias, shoppings...
Se nosso viajante fosse à Igreja da Catedral de Maceió e conversasse com fiéis, seria informado o quanto a Igreja Católica – uma instituição tida como imutável durante os séculos – passara por incríveis mudanças, desde as desculpas a Galileu por perseguição, até a instituição de uma pastoral que luta por Reforma Agrária.
Depois do passeio pelo Centro, o nosso viajante cairia na real: duzentos anos de fato haviam se passado. Porém, compreendemos como é difícil se adaptar a mudanças tão grandes, mesmo sendo boas. Nesse caso, se nosso herói sentisse saudades de seu tempo remoto e atrasado e desejasse voltar ao passado, bastava atravessar a rua e entrar no QCG...
Atenção, tivemos outra ideia (cuidado com as ideias):
Se o nosso praça do século XIX quiser uma PM melhor, podemos congelá-lo por mais duzentos anos, até 2211. Não é possível que num cenário futurístico de carros elétricos, arranha-céus, comunicação em tempo real no mundo todo, trens ultrassônicos e silenciosos, casas solares, colonização do oceano e da Lua, fim da poluição e outras tantas maravilhas tecnológicas, o nosso herói vá acordar no QCG com o toque de alvorada e a guarda forma para hastear a bandeira.
Se isso acontecer, só resta ao coitado jogar o chapéu e gritar aos coronéis:
"OK, VOCÊS VENCERAM!"

13 comentários :

Cabo Montana disse...

Senhores,

Cheguei a Cb por força de determinação judicial aos 18 anos de serviço na instituição.

Façam os senhores este juizo de valor.

Assessoria BEF disse...

Reajuste de 7% será pago até 15 de julho em folha suplementar

Com data ainda a ser definida, o governo do estado pagará a folha suplementar – que corresponde ao reajuste salarial de 7%, retroativo aos meses de maio e junho – até o dia 15 de julho. A folha suplementar destinada aos servidores públicos compreende o valor de R$ 10,5 milhões, sai em paralelo a folha salarial do mês de junho, que está prevista para ser paga a partir desta quinta-feira (30).

De acordo com a comunicação da Secretaria de Estado da Gestão Pública (Segesp), com a publicação no Diário Oficial do Estado da lei que concede reajuste de 7% nos salários dos servidos públicos estaduais, a Segesp fecha os últimos trâmites junto a Secretaria da Fazenda (Sefaz) para liberar o pagamento da folha suplementar.

Fonte: TNH

Jenésio, o Pecador disse...

Não vejo a hora do QSJ sair, ô vida, ô dó... Até quando, oh! Pai Amado?

Sócio da ASSOMAL disse...

Senhores, a vida não ruim apenas para os soldados. Os oficiais em sua maioria, e aí incluamos 97% dessa classe, não tem todos esses privilégios que se imagina, pois no final das contas, lembrem-se, a PMAL tem apenas 16 coronéis, e nem todos são iguais – apenas uma meia dúzia.

Andressa Carvalho disse...

Sim, o senhor está certo, mas não se compra em nada com o que o soldado sofre. Nós, da base da PM, somos os "negros"!

Uma Policial disse...

Sem comentários, Andressa Carvalho, sem comentários...

Jenésio, o Pecador disse...

A para sacramentar o debate:

http://3.bp.blogspot.com/-Ku_hXs_G4uo/TglM_qT0yQI/AAAAAAAANcE/I3NCwd_8P_g/s1600/ministro.jpg

Deus tenha piedade de todos nós, pois dentro da corporação corremos mais perigo que nas ruas (onde podemos meter um monte de bala revidando a ofensa sofrida).

ASCOM da PMAL disse...

Parabéns a todos os envolvidos na construção deste blog que, tenho certeza, é uma obra de primeiríssima qualidade. Parabéns ao major Monteiro, ao tenente Stive, ao cabo Montana, à soldado pfem Ana, por suas contribuições mesmo de forma anônima e não muito lícita nos assuntos inerentes à PMAL. Vocês merecem toda sorte do mundo para jamais serem descobertos. Abraços!

CAETANO disse...

TENHO CERTEZA QUE SERIA UMA PAISAGEM SUL-REAL. ENTRE PRÉDIOS MODERNOS QUE SERVIRIAM SOMENTE ÀS 24 FAMÍLIAS PODEROSAS. CARROS NOVOS E NOSSO TREM, QUE QUANDO FINALMENTE SAIR DA GARAGEM, SERÁ IGUAL A NOSSO SOLDADO. SE SENTIRÁ EM CASA RODANDO NOS MESMOS TRILHOS E O VALOROSO SOLDADO QUE SERVIRÁ NO MESMO QCG E DORMIRÁ NO MESMO ALOJAMENTO E COLCHÃO. E NÃO PODERÁ, DO MESMO JEITO, DIZER NADA. UM ""VIVA"" À DITADURA MILENAR!!!!!!QUANDO ALGUÉM VAI ENTRAR COM UMA MEDIDA PARA ACABAR COM ESSA FORMA ULTRAPASSADA DE MILITARISMO. A DITADURA ACABOU.

CAETANO disse...

ESTAMOS ASSISTINDO A DUAS FORMAS DE VIDA NO BRASIL: OS CIDADÃOS BRASILEIROS COM DIREITOS POLÍTICOS E CIVIS. DIREITO DE SE EXPRESSAR, DE FALAR, DIREITO DE TER DIREITOS E ETC. E DO OUTRO O MILITAR QUE, DEPOIS DE DISPUTAR ATRAVÉS DE CONCURSO UMA VAGA PARA A POLICIA MILITAR, FESTEJAR E SE SENTIR UM POUCO SUPERIOR À GRANDE MAIORIA DO POVO, POIS AGORA É FUNC. PÚBLICO. ELE DESCOBRE QUE NA VERDADE ELE É SUPERIOR AO TEMPO E INFERIOR A TUDO. PERDE SEUS DIREITOS. DIREITO DE ESTAR COM A FAMÍLIA, DIREITO AO CONFORTO, A SAÚDE, A UMA BOA ALIMENTAÇÃO. DIREITO DE FALAR, DE SE EXPRESSAR, DE EMITIR OPINIÃO. DE UM SALÁRIO DIGNO. E AGORA??!!! É SÓ RECLAMAR, FANTASIAR DIAS MELHORES PARA A POLÍCIA E ESPERAR A APOSENTADORIA PRA VER SE RECEBE A PROMOÇÃO. E AINDA SE(ALGUNS) SENTIR MELHOR DO QUE OS COMPANHEIROS, POR QUE DEPOIS DE APOSENTADO PASSOU A SARGENTO. UM ABRAÇO.

Amanda disse...

É verdade, CAETANO, mas lembre-se que "não há mal que dure para sempre"!

Uma Policial disse...

Muito interessante essa postagem. O problema em relação ao "não há mal que dure para sempre", é que enquanto dura deixa sequelas que praticamente se perpetuam por uma eternidade.

Anônimo disse...

QUANDO PELO MENOS NOS ALIMENTAR BEM(QUE E O ESSENCIAL PARA O SER "HUMANO")IREMOS? QUE NOJO ESSE NOSSO RANCHO ! QUANDO ISSO IRA MUDAR.SEI QUE BENEFICIA MUITA GENTE COM OS DESVIOS QUE EXISTEM, MAS SERA QUE ISSO NAO MUDARA NUNCA?

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